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Musicart

SBSR: O memorável 16 de Julho

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(Imagem: Vera Marmelo)

16 de Julho fica para a história como o dia em que o hip hop "dominou" pela primeira vez um festival de maior dimensão.
Uma aposta arriscada, ganha pela organização do Super Bock Super Rock ainda antes das portas abrirem, com a certeza de que havia "lotação esgotada" para o último dia do festival.

A expectativa do público era grande, principalmente para ver e ouvir Kendrick Lamar. O "Hottest MC in the Game" regressou a Portugal um álbum e cinco Grammy's depois, para transformar o MEO Arena num vulcão em erupção.
Sala cheia, braços no ar, letras decoradas de uma ponta à outra, saltos... Quase 20 mil pessoas em sintonia. Mérito de Kendrick, capaz de arrastar este público e mérito do próprio público, disponível, focado em desfrutar da música e transformar aquela noite uma noite memorável.
"Look both ways before you cross my mind", a frase do músico norte-americano, George Cliton, manteve-se como pano de fundo durante todo o espectáculo. Em palco, uma banda capaz de viajar entre o rock, o funk e o jazz, sem se desligar do hip hop, num complemento perfeito à lirica de K-Dot.
Não faltou praticamente nada. Da "Backseat Freestyle", "Swimming Pools" ou "Hood Politics", até à "Bitch Don't Kill My Vibe", "King Kunta" ou "m.A.A.d city", cantadas por quase 20 mil pessoas que, espontaneamente, interromperam o espectáculo para, durante cinco minutos, gritar pelo artista e aproveitar para exibir o orgulho patriótico pela conquista do Euro 2016. "That's love", foi a resposta de Kendrick, emocionado com o momento, antes de  "i" e do regresso para um final apoteótico, com "Alright".

Ficou a promessa de que há-de voltar a Portugal. Por nós, sim, sem dúvida!

 

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(Imagem: Vera Marmelo)

Em 1987, Compton, nascia Kendrick Lamar. No mesmo ano, do lado oposto dos Estados Unidos da América, Posdnuos, Dave e Maseo juntavam-se para formar os De La Soul. No mesmo cartaz, o encontro entre duas gerações, representantes de um género musical cada vez mais aclamado e que começa a ganhar o merecido espaço.

Em palco, um DJ e dois MC's foram mais do que suficientes para transformar o MEO Arena num autêntico club, onde não faltaram as mais conhecidas "Me, myself and I", "A Roller Skating Jam Named Saturdays" ou o tema partilhado com os Gorillaz, "Feel Good Inc".
Os De La Soul regressaram a Portugal, apesar de se tratar de uma estreia para a larga maioria do público. Os próprios tinham essa noção, ao apresentarem-se com modéstia e fazerem por conquistar uma plateia que, com toda a certeza, ficou surpreendida pelas rimas, pela dinâmica e pela interacção.
A passagem de testemunho não podia ter sido melhor.

 

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(Imagem: Vera Marmelo)


Em português, a receita foi idêntica. A contrabalançar com a bagagem trazida pelos cinco elementos dos Orelha Negra e Capicua, o Palco Antena 3 ofereceu a Slow J e Mike El Nite a oportunidade de dizerem "presente" e de mostrarem que o futuro era já ali ao lado.

Os Orelha Negra tinham a missão de abrir as hostes no MEO Arena e fizeram-no para uma sala quase cheia.
À semelhança do que aconteceu na apresentação do novo álbum (ainda sem data de lançamento anunciado), no CCB, as sombras dos cinco elementos da banda eram evidenciadas através de um véu que apenas se deixou cair depois de duas músicas.
A partir daí, aos novos temas juntaram-se os de álbuns anteriores, como "Throwback" e "M.I.R.I.A.M.". A "Hotline Bling", de Drake, transformou-se numa "Dedicatória" dos Mind da Gap e o "passado e o futuro" mencionados na sample lançada por Sam The Kid, ganharam forma com o "Canal 115" de Valete, Bónus e Adamastor a darem lugar a um fecho de espectáculo com o mais recente single, "Parte de mim". 
Afinal de contas, o passado e o futuro estavam mesmo ali.

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(Imagem: Vera Marmelo)

Eram 18H30 quando, das extensas filas que se formaram para entrar no recinto, começaram a ser ouvidos os primeiros acordes deste último dia de Super Bock Super Rock. Lá dentro, Slow J fazia-se acompanhar de Fred Ferreira (percussão) e Francis Dale (teclas) para cumprir um sonho: tocar no mesmo dia que Kendrick Lamar.
Os temas do trabalho "The Free Food Tape" foram alternando com algumas novidades e a energia contagiante do rapper de Setúbal foi correspondida por um público resistente ao calor e ao sol a "bater de chapa".
O momento alto ficou para o fim, com o primeiro single do próximo álbum, "Vida Boa", a fechar em grande um concerto demonstrativo daquilo que Slow J tem para dar.

Seguiu-se Mike El Nite. Dentro do espirito do Euro 2016 que ainda se vivia dentro do recinto, com a camisola da Selecção Nacional vestida, dedicou o primeiro tema, "Horizontes", aos vencedores do Campeonato da Europa. Com ele, subiram ao palco Profjam, Da Chick, L-Ali, No Fake e Kaixo. Não faltou a "Mambo Nº 1", nem as faixas do mais recente álbum, "O Justiceiro".
No final, todos em palco ao som de "T.U.G.A.", sem tambores e uivos, mas com gritos e aplausos.

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(Imagem: Vera Marmelo)


Os horários apertados acabaram por prejudicar Moullinex, Capicua e GNR, com concertos agendados para a mesma hora que Orelha Negra e De La Soul
"A Purple Experience", uma recriação das canções de Prince feita por Moullinex, com banda e interpretada por convidados como, Da Chick, Samuel Úria ou Best Youth, merece uma nova oportunidade.
Por baixo da pala de Siza Vieira, Capicua e M7, acompanhadas por DJ D-One e por um ilustrador que, em tempo real, decorava de forma interactiva o Palco EDP, fizeram várias mulheres subir ao palco, numa demonstração que aquela noite também era das "Marias Capazes.
No mesmo local, os GNR revisitaram o álbum "Psicopátria", que completa 30 anos, e aproveitaram apresentá-lo ao público mais jovem.

Que este dia tenha sido o mote para que mais cartazes destes se repitam.

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(Imagem: Vera Marmelo)