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Musicart

Rap Talks #2

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A sala voltou a encher para aquela que foi a última sessão desta 1ª edição das RAP Talks. Desta vez, o Mercado da Ribeira deu lugar ao bar O Bom e o Mau Vilão, no Cais do Sodré. 
No sofá, voltaram a sentar-se dois históricos do hip hop em Portugal. Mundo Segundo e José Mariño. Num ambiente mais intimista, proporcionado pelas caracteristicas da sala, falaram das suas carreiras, de projecções para o futuro e da sua visão relativamente ao hip hop.
A moderadora desta segunda sessão foi Makeda Cardiff, que colocou várias perguntas aos convidados e que abriu espaço para interacção com o público.


"Sou o homem que a música criou"


Mundo Segundo apresentou-se como Edmundo Silva. Uma pessoa como outra qualquer , amante da poesia e apaixonado pelo hip hop no inicio da década de 90.
Foi com mente aberta e de peito aberto que Mundo falou da sua ligação à música, do início no breakdance e do momento em que começou a escrever e encontrou a música como refúgio, após a morte do pai.
As primeiras produções e rimas surgiram com 14 anos de idade, mas apenas há 10 anos conseguiu passar a viver exclusivamente do que mais gosta de fazer. 
A viagem ainda vai a meio. Daqui a 10 anos espera estar a realizar o sonho de abrir a própria barbearia. Quer fazer mais, quer trazer coisas novas, quer continuar a fazer música sem um deadline. Quer passar a experiência a pessoas mais novas, para que possam atingir metas.
Mundo podia ser qualquer coisa. Não interessa a profissão, mas a missão. Desafiado a completar a frase "Se não fosse o RAP...", voltou a destacar a importância em ajudar os outros. "Era outra coisa qualquer que me permitisse ajudar o próximo a atingir algo".

"Às vezes, quando ninguém acredita, eu acredito (...) Acreditar faz-te tornar a pessoa que és"

O papel do hip hop na educação voltou a estar em cima da mesa. Mundo Segundo, que já foi convidado diversas vezes para palestras em escolas, considera que o maior papel pertence aos pais. Mas não necessariamente no sentido literal. Para ele, o hip hop foi um verdadeiro pai, enumerando uma série de MC's internacionais que foram uma referência na sua juventude, como Nas, Rakim ou KRS-One. Hoje, considera haverem muitos ídolos mas poucas figuras paternais.

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José Mariño assume-se como um dos primeiros divulgadores do rap e da cultura hip hop em Portugal. Um género musical pouco explorado e com pouca gente interessada em divulgá-lo, mas muita gente interessada em ouvir. Foi à boleia dessa comunidade, aliado ao facto de gostar de música portuguesa, que achou que fazia sentido apostar na sua divulgação. Esteve à frente dos programas de rádio "Novo RAP Jovem" e "Repto" e do programa televisivo "Beatbox", na SIC Radical.
Hoje está mais afastado, mas sem perder a ligação. Uma ligação marcante, que vai acompanhá-lo para o resto da vida.

 

"O que fiz deixou-me feliz e preenchido"


Rapública foi a 1ª compilação de rap em Portugal e contava com nomes sonantes, como Black Company ou Boss AC. O antigo director da Antena 3 destacou a sua importância e a forma como marcou uma época e um momento. Funcionou como um ponto de partida, onde o estilo musical começou a ganhar corpo e potenciou o aparecimento de projectos mais sólidos, com horas de trabalho, em que "não era só o microfone".
Este conjunto de caracteristicas levou-o a falar de Sam The Kid e do seu primeiro disco, marcante, apesar de conter uma série de imperfeições. Tinha qualquer coisa. Tinha alma.
Alma é precisamente o que José Mariño procura num bom rap, em que considera essencial ser genuino e conseguir comunicar, além de uma boa batida.


"Podes encontrar boas batidas sem boas letras. A mim não me diz nada."


As dificuldades encontradas há 20 anos atrás também voltaram a ser tema de conversa, à semelhança do que tinha acontecido na 1ª sessão.
O acesso à música hoje está facilitado e actualmente está tudo na internet.
Fazer outros programas facilitou a José Mariño deslocar-se ao estrangeiro e essa era a altura certa para comprar música.
Em Portugal, a discoteca Godzilla impulsionou a venda de mixtapes com alguma frequência e em boas quantidades. Uma oportunidade para mostrar novos MC's e DJ's.
Nem o programa "Beatbox", apesar de mais recente, escapou a essas dificuldades. Não era fácil conseguir videoclips com boa qualidade para passar em televisão.

Desafiados a deixar uma mensagem ao público, ambos apelaram à luta, ao empenho e à auto-critica.
"Lutar faz parte, vencer também, mas falhar faz aprender com os erros".
Mesmo para aqueles que não têm oportunidade de fazer o que gostam, que tentem fazê-lo com boas vibrações e com vontade. E, se têm um sonho, materializem-no.

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Chegou assim ao fim a 1ª edição das RAP Talks com um balanço, sem dúvida, muito positivo.
Há público, há interesse em ouvir e existem muitas histórias para serem contadas. Que esse seja o mote para que venham mais edições, não só em Lisboa, e para que se continue a falar de hip hop e de música portuguesa.
Parabéns à Hip Hop Valley pela iniciativa.