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Musicart

Slow J - "The Art of Slowing Down"

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Recuemos dois anos. Slow J servia "The Free Food Tape" enquanto começava a cozinhar um novo álbum que anda nas bocas de muitos portugueses.

Depois de um primeiro contacto auditivo com as produções e rimas do artista, o EP de estreia passou por aqui como uma das primeiras reviews do blogue. Estávamos em Novembro de 2015.
"Em jeito de previsão arriscada, ainda vamos ouvir falar muito dele", escrevia nesse post. Talvez não fosse assim tão arriscada. Talvez nem fosse uma previsão, mas a fé num talento que já mostrava ter os condimentos necessários para trazer qualquer coisa de novo à música portuguesa. Agora é mais fácil perceber. E sim, estamos a ouvir falar muito dele.

Ao longo deste tempo, dividiu-se entre o estúdio e o palco. "Cristalina" que, curiosamente, era o tema "menos Hip Hop" do EP, começou a dividir as atenções com "Vida Boa", que antecipava a vinda de um novo trabalho. Surgiu "Comida", "Serenata" e por fim "Pagar as Contas" para aguçar o apetite. Passou pelo Lux, Sudoeste, Sumol Summer Fest e Super Bock Super Rock, até chegar ao Mercado da Ribeira. Passou a correr.

 

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(Fotografia: Filipe Feio)


Há um mês atrás, depois de ser apresentado no Estúdio Time Out do Mercado da Ribeira, "The Art of Slowing Down" foi apresentado ao público.
Ao todo, quinze temas que nos levam numa viagem pelos vários cantos da vida de Slow J, através de um vasto leque de sonoridades. Do Sado a África, do Rock ao Semba, do trompete à guitarra portuguesa, fazendo jus ao verso de "Vida Boa", em que nos diz que "Não é Rap, nunca é Rap, é sonhos escritos num caderno". Sonhos que percorrem uma transversalidade arriscada, mas que resultou na perfeição.

Depois de uma introdução ao som das palavras de José Mijuca no documentário "Human", Slow J aproveita o tema "Arte", divulgado como single na manhã do lançamento do álbum, para questionar: "Ma nigga, diz-me se isto é arte". É. E o sinal de aprovação surge através do abanar de cabeça afirmativo, ao som da fusão entre o Rock e a Electrónica proporcionado por esta "malha". Mas, se um abanar de cabeça não for suficiente, vale a pena esperar pela "Casa" para que o Semba tome conta do resto do corpo.

 

À excepção de Macacos do Chinês e um ou outro tema com participações de fadistas, não é comum ouvir os acordes da guitarra portuguesa juntamente com vozes mais viradas para o Rap. Em "Sonhei Para Dentro", a guitarra é o complemento ideal para uma letra cheia de ambição e determinação.
E já que se fala em complemento ideal, Nerve e Slow J juntam-se num "Às Vezes" em que as vozes e a lírica superam a melodia.

Dos temas que já tinham sido antecipados, "Comida" é o primeiro a aparecer no álbum e é, talvez, aquele que mais se aproxima do registo apresentado em grande parte de "The Free Food Tape", seguindo-se a "Serenata" que, apesar de ter aparecido numa versão "demo", não parece ter sofrido alterações para a versão original.
Pelo meio "Biza" representa alguém que vai numa auto-estrada mas que não se esquece de olhar para os espelhos retrovisores, atento ao caminho que vai deixando para trás.

 

"Pagar as Contas" e "Vida Boa" são os temas preferidos da maioria, pelo menos a julgar pelas reacções. Foram, também, os primeiros a serem acompanhados de videoclip, ajudando a dar um boost. O primeiro, com as participações de Gson (Wet Bed Gang) e Papillon (Grognation), pretende "trazer o 2Pac à década do Rap e Trap", mas traz-nos também métricas completamente distintas que encaixam na perfeição. O segundo, se já é surpreendente nas colunas do computador ou do carro, ao vivo tem a capacidade de ser tornar "explosivo", principalmente no momento após refrão.
Para acalmar os ânimos, há uma dose de "Sado", num registo mais R&B.

A fechar, "Mun'Dança" volta a trazer à baila a batida africana. Três minutos em que pouco importa o facto de repetir interruptamente os mesmos versos. É para dançar e pronto!

Não vale a pena estar aqui à procura de muitos adjectivos para descrever este álbum. "The Art of Slowing Down" é um álbum completo a todos os níveis. É o resultado do trabalho e esforço aplicados, demonstrado nas entrevistas à Antena 3 e TV Chelas, complementado com o visível empenho que é dado por Fred e Francis Dale.

Sem ser em jeito de previsão, uma certeza: vamos continuar a ouvir falar muito dele.